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Número de queixas de violência doméstica aumentou no distrito

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Qui, 22/02/2024 - 09:56


Comparando com 2022, em 2023 a GNR recebeu mais 50 denúncias, a PSP mais 15 e o Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica de Bragança acolheu cerca de 250 pessoas em 2023, quando em 2022 tinha atendido perto de 170

O número de casos de violência doméstica aumentou, a nível nacional, comparando o ano de 2022 com o de 2023 e a região não fugiu à tendência.

“Maria” é uma das vítimas do distrito mas não entra nestas estatísticas porque nunca apresentou queixa. Assumiu que não o fez por ter acreditado que também era agressora. “Ele disse que se eu apresentasse queixa ele também o faria, porque eu também o agredi, algumas vezes para me defender e outras por raiva do que me estava a fazer”.

O medo de se expor também ajudou a que ficasse calada. “Não queria que as pessoas olhassem para mim e automaticamente começassem a pensar nisso. A imaginar como o pude permitir”.

Ao Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica de Bragança, uma resposta da Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança, chegam pessoas que são encaminhadas pelas autoridades, após a denúncia, e vítimas que procuram ajuda, de forma a compreender a situação e perceber o que podem fazer, mas que ainda não apresentaram queixa. E, segundo Maria Luís Martins, psicóloga e coordenadora do núcleo, em 2022 foram atendidas cerca de 170 vítimas e em 2023 foram acolhidas perto de 250 pessoas. O aumento deve-se a mais queixas mas não só. “Não quer directamente dizer que as situações aumentaram, mas, garantidamente que, pelo menos, as pessoas procuram mais ajuda”.

As vítimas têm total acompanhamento do núcleo. “Podemos acompanhá-la nas diligências juntos dos órgãos policiais, junto dos advogados e do tribunal, durante todo o processo, prestando apoio. Sempre que as coisas fiquem mais assustadoras, as pessoas têm um telefone, para onde pode ligar 24h por dia, para esclarecer dúvidas, para apoio emocional, para qualquer coisa”.

Esta é uma ajuda que é para todos. “Ninguém está livre de ser agredido na relação. Este apoio não existe apenas para pessoas carenciadas. Existe para toda a gente. Eu não posso escolher se uma pessoa me dá um estalo ou se me insulta, mas tenho poder de escolha, daí para a frente, em relação ao que quero”.

Cerca de 90% das pessoas que chegam ao núcleo e ainda não apresentaram queixa acabam por fazê-lo. E, segundo explicou a psicóloga, a maior parte das vítimas são mulheres, casadas e com filhos. Independentemente do contexto, as pessoas, hoje em dia, acabam por deixar arrastar a situação que vivem por causa da conjuntura. “Estamos a passar por uma crise económica grande e não é fácil manter uma vida estável. Isso tem um peso muito grande nas decisões que tomamos. Se saímos de casa não pensamos só em nós, pensamos nos filhos, se temos ou não capacidade para lhes dar de comer. E se não há filhos também se pensa na capacidade que se tem de sobreviver sem a outra pessoa”.

O medo e a manipulação também ajudam a que as vítimas se calem. “Temos a tendência para dizer ‘eu só fiz porque tu fizeste’, pegar no meu erro para o desvalorizar e enaltecer o erro da outra pessoa. Isso são desculpas. Mas é muito difícil a vítima ver as coisas por esse prisma. Quanto mais isoladas mais difícil será, depois, sair da relação porque o que se imagina é que se se perder aquela relação não resta mais nada. Mas não. Não é assim. Muitas vezes perdeu-se sim tudo porque se esteve naquela relação, mas há uma solução, há uma saída”.

O núcleo do qual Maria Luís Martins é coordenadora está localizado na Praça Camões, em Bragança. Ali é possível pedir ajuda, num cenário de violência doméstica.

As autoridades alertam que "a violência doméstica é crime público e denunciar é uma responsabilidade colectiva", apelando à comunicação deste tipo de crime.

Escrito por Brigantia

Jornalista: 
Carina Alves